Comer é um dos melhores momentos da vida do ser humano. Poder sentir o sabor dos alimentos é algo que vai muito além de apenas nutrir o corpo; envolve cultura, memória afetiva e socialização. No entanto, um medicamento que virou febre no Brasil tem gerado um efeito colateral indesejado: a perda do prazer de comer. Trata-se da famosa caneta emagrecedora, que, segundo o relato de uma jornalista ao VivaBem, do UOL, trouxe esse efeito desafiador e fez com que ela parasse de se automedicar com o remédio.
O relato mostra uma consequência que pode ser menos evidente quando o objetivo principal do tratamento é a perda de peso. As chamadas canetas emagrecedoras conseguem diminuir a fome e aumentar a sensação de saciedade, mas, para algumas pessoas, a mudança na relação com a comida pode ultrapassar a simples redução da quantidade ingerida. O alimento deixa de despertar o mesmo interesse e refeições que antes faziam parte da rotina social podem perder significado.
Como as canetas emagrecedoras alteram a relação com a comida
Os medicamentos mais conhecidos dessa categoria atuam sobre mecanismos hormonais relacionados ao controle da fome e da saciedade. Entre eles estão substâncias como semaglutida, presente remédios como Ozempic e Wegovy, e tirzepatida, utilizada no Mounjaro.
A semaglutida, por exemplo, imita a ação do GLP-1, um hormônio produzido naturalmente pelo organismo. A ativação desse sistema contribui para aumentar a saciedade e diminuir a sensação de fome, além de retardar o esvaziamento do estômago. Com isso, a pessoa tende a consumir menos alimentos e pode permanecer satisfeita por mais tempo. A Anvisa reconhece esses mecanismos nas indicações aprovadas para controle do peso.
É justamente essa alteração dos sinais relacionados à alimentação que ajuda a explicar por que algumas pessoas descrevem uma mudança tão significativa na experiência de comer. A fome deixa de ocupar o mesmo espaço na rotina e determinados alimentos podem deixar de parecer tão atrativos quanto antes.
Quando perder a fome também significa perder o prazer
Existe uma diferença importante entre sentir menos fome e deixar de sentir prazer ao comer. O primeiro efeito faz parte da finalidade terapêutica desses medicamentos; o segundo aparece em relatos de alguns usuários e pode ter consequências que vão além da alimentação.
Uma pessoa pode continuar sabendo que determinado prato é saboroso, mas não sentir a mesma motivação para comê-lo. Em alguns relatos reunidos pelo UOL, essa alteração chegou a interferir em encontros com amigos, refeições fora de casa e outras situações nas quais a comida costumava fazer parte da experiência social.
A alimentação não cumpre apenas uma função biológica. Refeições também estão associadas a encontros familiares, comemorações, tradições e lembranças construídas ao longo da vida. Por isso, uma mudança intensa no interesse pela comida pode ser percebida como uma perda que não está necessariamente relacionada ao sabor em si, mas à função que aquele momento exercia na rotina.
Um exemplo citado na reportagem é o da jornalista Fernanda Ornellas, que relatou ter enfrentado falta de apetite, fraqueza e dificuldade para manter atividades sociais enquanto utilizava a medicação. A experiência fez com que ela interrompesse o tratamento por conta própria, algo que, segundo a orientação da fabricante, não deve ser feito sem conversar com um profissional de saúde.
Por que isso acontece no organismo?
O funcionamento dessas substâncias ajuda a entender parte do fenômeno. O GLP-1 participa do sistema que regula fome, saciedade e ingestão de alimentos. Quando um medicamento ativa esse receptor de maneira prolongada, o cérebro recebe sinais que favorecem a sensação de satisfação e reduzem a busca por comida.
A ação no sistema digestivo também é relevante. O retardamento do esvaziamento gástrico faz com que os alimentos permaneçam mais tempo no estômago, contribuindo para uma sensação prolongada de saciedade. A Anvisa confirma esse efeito entre as características dos agonistas do receptor de GLP-1.
No caso da tirzepatida, há ainda uma atuação sobre os receptores GIP e GLP-1. O medicamento reduz a ingestão de alimentos, aumenta a saciedade e diminui a ingestão calórica, mecanismos que contribuem para a perda de peso.
Isso não significa, porém, que todos os usuários experimentarão perda do prazer de comer. Os medicamentos possuem efeitos conhecidos sobre apetite e saciedade, mas a percepção subjetiva de prazer relatada por alguns pacientes não deve ser tratada como uma reação inevitável ou universal.
O efeito também pode atingir a vida social
A relação entre alimentação e convivência torna o problema mais complexo. Um jantar com amigos, uma sobremesa depois do almoço ou uma refeição preparada para uma ocasião especial podem ter importância que vai além das calorias ingeridas.
Quando a pessoa perde o interesse pela comida, essas situações podem deixar de provocar a mesma expectativa. Segundo os relatos reunidos pelo UOL, houve usuários que passaram a participar menos desses momentos ou precisaram fazer esforço para consumir alimentos e bebidas durante encontros sociais.
Esse aspecto é particularmente relevante porque a alimentação também pode estar ligada à identidade profissional e cultural. Um dos relatos apresentados na reportagem é do jornalista gastronômico John Devore, que descreveu uma sensação de vazio ao perceber que havia perdido parte do prazer que sentia diante da comida.
Dessa forma, a alteração provocada pelo tratamento não precisa ser interpretada apenas como uma questão de quantidade de comida. Para algumas pessoas, ela modifica a maneira como determinadas experiências cotidianas são percebidas.
A perda do prazer de comer é um efeito colateral comprovado?
Aqui é necessário fazer uma distinção. Náusea, vômitos, diarreia e outros sintomas gastrointestinais estão entre as reações adversas conhecidas dos agonistas do GLP-1. A redução do apetite e o aumento da saciedade também fazem parte do mecanismo esperado dos medicamentos utilizados no controle do peso.
Já a ideia de que essas substâncias provocam diretamente uma perda generalizada da capacidade de sentir prazer, incluindo o prazer alimentar, exige mais cautela. Relatos individuais podem indicar uma experiência real do paciente, mas não são suficientes para estabelecer que o medicamento provoca esse efeito em todas as pessoas ou determinar exatamente o mecanismo responsável por ele.
Uma reportagem da Folha publicada em agosto de 2026, por exemplo, destacou relatos de usuários que perceberam redução do interesse por atividades anteriormente prazerosas, mas ressaltou que ainda não havia evidências suficientes para afirmar que medicamentos como semaglutida e tirzepatida alterassem de maneira geral a percepção de prazer, a libido ou o humor.
Por isso, a perda do prazer de comer deve ser encarada como uma experiência que merece ser comunicada ao profissional responsável pelo tratamento, e não como uma consequência obrigatória das chamadas canetas emagrecedoras.
O que fazer quando a comida deixa de despertar interesse?
A primeira medida é não alterar a dose ou abandonar o medicamento por conta própria. Esses tratamentos precisam ser acompanhados por profissionais de saúde justamente porque a resposta pode variar entre os pacientes e porque existem diferentes estratégias para lidar com reações adversas.
Dependendo do medicamento, da dose utilizada e das condições clínicas do paciente, o profissional pode avaliar mudanças na condução do tratamento. A própria reportagem do UOL cita a possibilidade de adaptação da alimentação e ajuste da dose como estratégias que podem ser consideradas para reduzir efeitos indesejados.
Também é importante garantir que a redução do apetite não resulte em uma ingestão insuficiente de nutrientes. Uma pessoa que passa a comer muito menos precisa manter uma alimentação capaz de fornecer proteínas, vitaminas, minerais, fibras e energia em quantidade adequada às suas necessidades.
No Brasil, a Anvisa determinou que medicamentos agonistas de GLP-1, como Ozempic, Mounjaro e Wegovy, sejam vendidos com retenção de receita. A medida foi adotada em razão, entre outros fatores, do número elevado de eventos adversos associados ao uso desses produtos fora das indicações aprovadas.
Emagrecer não significa necessariamente deixar de gostar de comer
As canetas emagrecedoras representam uma mudança importante no tratamento de condições relacionadas ao excesso de peso, justamente porque conseguem atuar sobre mecanismos biológicos envolvidos na fome e na saciedade. Mas o objetivo terapêutico não deve ser confundido com eliminar completamente o interesse pela alimentação.
A comida continua exercendo funções nutricionais, culturais e sociais. Por isso, quando uma pessoa percebe uma mudança intensa e persistente na maneira como se relaciona com os alimentos, especialmente se isso vier acompanhado de fraqueza, dificuldade para se alimentar ou prejuízo na vida cotidiana, a situação deve ser discutida com o profissional que acompanha o tratamento.
O relato de quem passa por essa experiência ajuda a mostrar uma dimensão menos discutida das canetas: reduzir a fome pode ser parte do efeito desejado, mas uma alteração significativa na relação com a comida também precisa ser observada. Afinal, controlar a ingestão alimentar e perder peso são objetivos diferentes de eliminar uma das experiências que fazem parte da alimentação.



